Vivi Lyra: das cordas de náilon aos palcos do Brasil
Cultura · Perfil musical
Cantora, compositora e instrumentista transformou a timidez, as memórias familiares e o aprendizado autodidata em uma trajetória que atravessa o pop, o rock, a MPB e o reggae.
Antes dos palcos, das bandas e dos videoclipes, havia um violão Di Giorgio com cordas de náilon.
Vivi Lyra tinha 10 anos quando recebeu o instrumento de presente dos pais. Mais do que marcar sua entrada definitiva na música, aquele violão estabeleceu uma ligação afetiva que permanece viva em sua trajetória.
Mesmo transitando por diferentes estilos, formações e projetos, a cantora preserva a preferência pelas cordas de náilon. Elas representam uma origem: o aprendizado construído pela observação, a influência de pessoas próximas e a decisão de seguir um caminho próprio na música.
Natural de Brasília, no Distrito Federal, Vivi começou a demonstrar interesse pelo canto e pelos instrumentos ainda na infância. Sua história passaria por diferentes cidades, países, palcos e fases profissionais, mas a música permaneceria como ponto de continuidade.
Uma infância marcada por viagens e descobertas
Filha de um servidor do Itamaraty e penúltima entre quatro irmãos, Vivi cresceu ao lado de Vanessa, Verônica e João Carlos, o caçula. Durante a infância, acompanhou as mudanças profissionais da família e, antes de completar 5 anos, chegou a morar fora do Brasil, onde teve contato com diferentes culturas.
Uma dessas experiências aconteceu em Georgetown, capital da Guiana. Em uma época na qual o acesso a conteúdos em português era limitado, a televisão em inglês fazia parte da rotina familiar.
Foi nesse contexto que sua mãe lhe apresentou o trabalho do The Bangles, banda norte-americana formada por mulheres. Anos depois, essa referência ganharia um significado especial na trajetória de Vivi, que também realizaria o desejo de participar de uma banda formada por mulheres.
Ao retornar ao Brasil durante as férias, ainda criança, Vivi chegou a misturar palavras em inglês e português. A experiência no exterior ampliou suas referências culturais e passou a integrar as memórias que ajudariam a formar sua identidade artística.
A influência do tio Carlinhos
O primeiro contato mais próximo de Vivi Lyra com a música aconteceu por influência do tio Carlinhos. Autodidata, ele cantava e tocava as músicas de que gostava, tornando-se uma das primeiras referências musicais da sobrinha.
Vivi costumava ficar diante dele, observando os movimentos das mãos e tentando reproduzir o que via. O aprendizado começou pela imitação, pela escuta e pela curiosidade.
O tio chegou a lhe ensinar alguns fundamentos do violão, mas faleceu em um acidente de trânsito durante aquele período. A perda interrompeu a convivência, mas não apagou a influência.
Vivi ainda chegou a se matricular em aulas formais de violão. Entretanto, identificou-se com o processo de aprender por conta própria e decidiu continuar desenvolvendo suas habilidades de maneira autodidata.
O teatro ajudou Vivi Lyra a enfrentar a timidez
Durante o período em que viveu com a família no Rio de Janeiro, entre 1999 e 2007, Vivi encontrou no teatro uma forma de desenvolver sua presença diante do público.
Entre 2001 e 2004, participou de atividades teatrais na Paróquia Sangue de Cristo, no bairro da Tijuca. O contato com a interpretação ajudou a cantora a enfrentar a timidez e a se sentir mais confortável no palco.
Aquela criança que cantava escondida começou, pouco a pouco, a descobrir que o palco também poderia ser um espaço de expressão, liberdade e pertencimento.
O teatro não substituiu a música. Ao contrário, ofereceu recursos para que Vivi aprendesse a se comunicar melhor com o público e fortalecesse sua confiança como intérprete.
Dos festivais escolares à primeira composição
Aos 14 anos, Vivi Lyra participou de uma mostra de talentos realizada no Colégio Notre-Dame Aparecida, em Carazinho, no Rio Grande do Sul.
No repertório estavam músicas associadas a artistas como Spice Girls, Sandra de Sá e Patrícia Marx. Os festivais eram realizados anualmente, e Vivi procurava participar sempre que surgia uma nova oportunidade.
Aos 16 anos, deu outro passo importante ao compor sua primeira música, intitulada “Sempre Amarei a Ti”. A composição marcou o início da construção de um repertório próprio, para além das interpretações que já apresentava nos festivais.
Vivi também participou de atividades promovidas por escolas de música e passou por aulas de canto. Essas experiências contribuíram para seu desenvolvimento vocal, embora sua formação continuasse fortemente ligada à prática, à observação e ao aprendizado independente.
Hangar 13 e o início da atuação profissional
A entrada profissional de Vivi Lyra na música aconteceu em 2004, com a banda Hangar 13.
Com o grupo, participou de eventos, festivais e apresentações ligadas ao rock. Na mesma época, também realizou shows com repertório inspirado na banda Evanescence, uma das referências de destaque do rock internacional nos anos 2000.
A experiência em banda colocou Vivi diante dos desafios que fazem parte de uma carreira musical: ensaios, deslocamentos, construção de repertório, organização de apresentações e relacionamento com o público.
Sua trajetória também foi acompanhada por diferentes mudanças de cidade. Depois do período no Rio de Janeiro, Vivi viveu em Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, e passou por outras regiões do país.
Em 2013, retornou ao Rio de Janeiro com o objetivo de ampliar sua presença na música e cantar na noite carioca. No início de 2014, voltou a Palmeira das Missões para permanecer próxima da família.
A construção da carreira solo
Em 2015, Vivi encerrou seu ciclo na Hangar 13. Naquele período, havia sido aprovada em um concurso público, embora ainda aguardasse a convocação para assumir o cargo.
A cantora mudou-se para Pato Branco, no Paraná, e começou a se apresentar em bares e pubs da região. As dificuldades de deslocamento e as novas prioridades profissionais contribuíram para o início de uma fase mais independente.
Sem a estrutura da antiga banda, Vivi passou a construir sua carreira solo. A mudança trouxe novos desafios, mas também abriu espaço para que desenvolvesse um repertório mais conectado à própria identidade artística.
Seu trabalho começou a ser apresentado em diferentes formações, como Vivi Lyra, Vivi Lyra e Banda e Trio Vivi Lyra. Essa flexibilidade permitiu que a artista transitasse por eventos, casas noturnas e projetos musicais de diferentes formatos.
Rock Femme e a realização de um antigo sonho
Em 2017, Vivi Lyra realizou um desejo que carregava desde a infância ao participar da formação da Rock Femme, banda composta por mulheres.
A criação do grupo estabeleceu uma conexão simbólica com aquela lembrança de Georgetown, quando conheceu o The Bangles por influência da mãe. O que antes parecia apenas uma referência musical da infância transformou-se em inspiração para uma experiência concreta.
A Rock Femme realizou apresentações no Sul do Brasil, no Distrito Federal e no Rio de Janeiro. O projeto também reforçou a presença de mulheres instrumentistas e intérpretes em espaços historicamente ocupados por formações masculinas.
Em 2018, Vivi tomou posse em um cargo público em Pato Branco. A estabilidade profissional, entretanto, não significou o afastamento da música.
Ela continuou ligada à Rock Femme e, paralelamente, avançou com seu projeto solo. A partir daquele momento, passou a conciliar as responsabilidades do serviço público com ensaios, apresentações, produção musical e divulgação do próprio trabalho.
Uma artista entre o pop, o rock, a MPB e o reggae
A identidade musical de Vivi Lyra não está limitada a um único gênero. Seu repertório transita por referências da MPB, do pop, do rock e do reggae.
Em novembro de 2019, a cantora lançou “Higher”, seu primeiro videoclipe. A faixa representou um passo importante na profissionalização de sua presença nas plataformas digitais.
Em 2021, chegou “Telas de Dali”. No ano seguinte, Vivi apresentou “Vem K”, um reggae pop desenvolvido em parceria com o compositor Kenny Bakof. A música aborda encontros e desencontros amorosos e foi acompanhada por um videoclipe.
O lançamento também recebeu divulgação no portal da Universal Music Brasil, ampliando a visibilidade do trabalho da cantora.
Em 2023, Vivi lançou “Nem Tô”, faixa que apresenta uma mensagem de leveza diante das pressões, preocupações e responsabilidades da vida cotidiana.
A discografia ganhou continuidade com “Dona do Perigo”, em 2024, seguida por “Mentira Perfeita” e “Deixa Voar”, em 2025.
Em maio de 2026, a artista lançou “Café frio”, música com uma proposta pop romântica. A canção representa uma nova etapa de sua produção autoral e amplia um catálogo construído gradualmente, lançamento após lançamento.
Dos primeiros festivais à presença nacional
Ao longo da carreira, Vivi Lyra levou seu trabalho a quatro estados — Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro — além do Distrito Federal.
A artista também relata participações em atrações televisivas e projetos de comunicação, incluindo experiências relacionadas aos programas de Lucimara Parisi e Ratinho, além do Programa TV Total, da TV Celinauta.
Sua caminhada mostra uma realidade conhecida por muitos artistas independentes brasileiros: desenvolver a própria obra enquanto administra trabalho, deslocamentos, produção, divulgação e busca por oportunidades.
Nesse cenário, Vivi procura manter uma agenda ativa e utilizar as redes sociais e as plataformas digitais para aproximar seu trabalho do público.
As cordas que atravessam a história
O violão recebido aos 10 anos não foi apenas o primeiro instrumento de Vivi Lyra. As cordas de náilon tornaram-se uma imagem capaz de resumir sua trajetória.
Elas conectam a memória do tio Carlinhos, o aprendizado autodidata, os festivais escolares, a superação da timidez, a experiência com bandas e a construção de uma carreira solo.
A trajetória de Vivi não aconteceu em linha reta. Foi atravessada por mudanças de cidade, perdas familiares, responsabilidades profissionais e recomeços. Ainda assim, a música permaneceu.
Da menina que cantava escondida à artista que passou a ocupar palcos em diferentes regiões do Brasil, existe uma mesma disposição: continuar criando, aprendendo e encontrando novas formas de fazer sua voz chegar ao público.
Com “Café frio”, Vivi Lyra acrescenta mais uma música a essa história. As cordas de náilon que marcaram o início continuam simbolicamente presentes — agora acompanhando uma artista que transformou memória, persistência e identidade em expressão musical.
Conheça o trabalho de Vivi Lyra
As músicas “Higher”, “Telas de Dali”, “Vem K”, “Nem Tô”, “Dona do Perigo”, “Mentira Perfeita”, “Deixa Voar” e “Café frio” podem ser encontradas nas principais plataformas digitais.
Acompanhe os canais oficiais de Vivi Lyra para conhecer seus lançamentos, videoclipes e a agenda de apresentações.
Fontes e transparência editorial
As informações biográficas foram fornecidas ao colunista Álvaro Neto e estão em processo de confirmação final com a artista ou sua assessoria. Imagens complementares e créditos também aguardam validação.


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